terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Capitulo 17

17
...♪...
Ronnie
Quando Ronnie acordou, ela olhou para o relógio, aliviada, pois era a
primeira vez que ela conseguia dormir desde que havia chegado ali. Não
estava tarde, mas enquanto saia da cama, ela sentiu-se descansada. Ela
podia ouvir a televisão na sala, e imediatamente, pensou em Jonah. Ele
estava deitado no sofá, de cabeça para baixo, olhando fixamente para a
tv. Seu pescoço, exposto como se estivesse indo para a guilhotina, estava
coberto de farelo de Pop-Tart. Ela observou enquanto ele dava outra
mordida, jogando mais migalhas sobre ele e o tapete.
Ela não queria perguntar. Ela sabia que a resposta na faria sentido, mas
mesmo assim, ela não pôde evitar.
“O que você esta fazendo?”
“Eu estou assistindo TV de cabeça para baixo”, ele respondeu. Ele estava
assistindo aqueles desenhos japoneses, com criaturas de olhos grandes,
que ela nunca entendia.
“Por quê?”
“Porque eu quero”
“E eu pergunto de novo: por quê?”
“Eu não sei”
Ela sabia que não deveria ter perguntando. Então, olhou em direção à
cozinha. “Onde está o papai?”
“Eu não sei”
“Você não sabe onde o papai está?”
“Eu não sou a babá dele”. Ele soava irritado.
“Quando ele saiu?”
“Eu não sei”
“Onde ele estava quando você se levantou?”
“Uhm“ Seu olhar não desviou da TV em nenhum momento “Ele falou algo
sobre a janela”
“E então...“
“Eu não sei“
“Você está dizendo que ele simplesmente desapareceu no ar?”
“Não, estou dizendo que depois disso, o pastor Harris passou aqui e eles
foram conversar lá fora”
“E por que você não me disse isso?”, perguntou Ronnie, exasperada.
“Porque eu estou tentando assistir ao meu desenho de cabeça para baixo,
e é muito difícil falar enquanto meu sangue está correndo para minha
cabeça”
Ele ajeitou-se – Talvez você devesse ficar de cabeça para baixo com mais
freqüência, então – Ronnie pensou, mas não disse. Porque ela estava de
bom humor. Porque ela tinha conseguido dormir dentro de casa. E o
melhor de tudo, porque ela estava ouvindo um vozinha dentro dela que
sussurrava: Você pode estar indo para casa hoje. Sem mais Blaze, sem
mais Marcus ou Ashley, sem acordar cedo toda manhã.
Sem mais Will também... O pensamente a fez parar. De tudo por tudo, ele
não havia sido tão ruim. Na verdade, ela tinha passado um dia divertido
com ele, ontem, até o final, pelo menos. Ela realmente deveria ter contado
a ele o que Ashley havia dito. Ela devia ter se explicado. Mas com Marcus
aparecendo daquele jeito...
Ela realmente, realmente, queria dar o fora daquele lugar o mais rápido
possível. Afastando as cortinas, ela olho pela janela. Seu pai e o pastor
Harris estavam conversando na entrada da garagem, e ela percebeu que
não via o pastor Harris desde que era uma criança. Ele havia mudado
desde então: estava apoiado em uma bengala, e seu cabelo e
sobrancelha tão memoráveis, agora estavam brancos. Ela sorriu,
lembrando quão gentil ele havia sido no funeral de seu avô.
Ela sabia o porquê seu pai gostava tanto dele. Havia algo infinitamente
bom nele, e ela recordou-se de que após os serviços funerários, ele havia
oferecido a ela um copo de limonada que era mais doce do que qualquer
soda. Eles pareciam estar conversando com mais alguém na garagem,
alguém que ela não podia ver. Ela foi ate a porta e a abriu, para ter uma
visão melhor. Levou apenas um minuto para que ela reconhecesse a
viatura.
O oficial Pete Johnson estava dentro do carro, com a porta aberta, se
preparando para ir embora. Ela pode ouvir o carro ligando, e enquanto
descia as escadas da varanda, seu pai parecia estar tentando. O oficial
Pete balançou a porta, fechando-a, deixando Ronnie com um sentimento
de derrota.
Quando ela alcançou seu pai e o pastor Harris, o oficial Pete já estava
saindo da garagem, o que só confirmou o pressentimento de Ronnie de
que vinham más notícias.
“Você está de pé” seu pai disse “Eu dei uma olhada em você a pouco
tempo atrás e você estava morta para o mundo”. Ele acenou com seu
polegar. “Você se lembra do pastor Harris?”
Ronnie estendeu sua mão. “Lembro sim. Olá de novo. É bom vê-lo”
Quando o pastor Harris pegou sua mão, ela notou cicatrizes brilhantes
cobrindo seus braços e mãos. “Eu não acredito que está é a mesma
senhorita que eu tive o prazer de conhecer tanto tempo atrás. Você está
crescida agora.” Ele sorriu. “Você parece sua mãe”
Ela vinha ouvindo bastante isso ultimamente, mas não sabia o que fazer
com essa informação. Isto queria dizer que ela parecia velha? Ou que sua
mãe parecia nova? Era difícil dizer, mas ela sabia que ele tinha dito isso
como um elogio. “Obrigada. Como a Sra. Harris está?”
Ele ajeitou sua bengala. “Ela está me mantendo na linha, como sempre
fez. E eu tenho certeza que ela adoraria vê-la assim tão bem. Se você
tiver tempo de passar lá em casa, eu vou garantir que tenha uma jarra de
limonada caseira para você”
Isso queria dizer que ele se recordava também.
Ele se virou para Steve “Obrigado novamente por se oferecer para fazer a
janela. Está ficando linda”
Ele acenou, “O senhor não tem o que agradecer”
“Claro que eu tenho. Agora eu realmente tenho que ir. As irmãs Towson
estão no comando do estudo da Bíblia, esta manhã, e se você as
conhece, você sabe que é imperativo que eu não as deixe sozinhas. Elas
adoram Daniel e o Apocalipse, e parece que esqueceram que Coríntio
também é um bom capítulo“ Ele virou-se para Ronnie “Foi maravilhoso vêla
novamente, minha jovem. Espero que seu pai não esteja lhe causando
muitos problemas esses dias. Você sabe como os pais podem ser”.
Ela sorriu. ”Ele é legal”
“Bom. Mas se ele lhe trouxer algum problema, venha falar comigo, e eu
farei o meu melhor para colocá-lo na linha. Ele costumava ser arteiro
quando criança, então posso imaginar o quão frustrada você pode estar”.
“Eu não era arteiro” seu pai protestou “Tudo que eu fazia era tocar piano”
“Lembre-me de te contar da vez em que ele colocou corante vermelho na
água benta de um batizado”
Ele pareceu mortificado. “Eu nunca fiz isso!”
Pastor Harris parecia estar se divertindo. “Talvez não, mas o meu ponto
não é este. Não importa como seu pai apresente a si mesmo, ele não era
perfeito”
Com isso, ele se virou para ir embora. Ronnie observou-o indo, divertida.
Qualquer um que podia fazer seu pai sofrer – de um jeito inofensivo, é
claro – era alguém que ela definitivamente gostaria de conhecer melhor.
Especialmente se ele sabia historias sobre seu pai. Histórias divertidas.
Boas histórias. A expressão de seu pai enquanto o via ir embora era
inescrutável. Entretanto, quando ele se virou para ela, ele pareceu voltar a
ser o pai que ela conhecia, e se lembrou que o oficial Pete estava ali
alguns minutos atrás.
“O que foi que aconteceu?” ela perguntou “Com o oficial Pete”
“Porque não tomamos café da manhã primeiro? Aposto que está faminta.
Você mal jantou ontem à noite”
Ela cruzou os braços. “Apenas me diga logo, pai”
Seu pai hesitou, lutando para encontrar as palavras certas, mas não havia
nenhuma maneira de adoçar a verdade. “Você não vai poder voltar para
Nova York, pelo menos até semana que vem. Os donos da loja vão
prestar queixa.”
Ronnie sentou na duna, menos irritada do que assustada com o que
estava acontecendo dentro da casa. Fazia uma hora desde que seu pai
tinha lhe passado o que o oficial Pete havia dito, e ela estava sentada do
lado de fora desde então. Ela sabia que seu pai estava lá dentro falando
com sua mãe ao telefone, e Ronnie apenas podia imaginar qual seria a
reação dela. Essa era a única coisa boa em estar aqui.
Exceto por Will...
Ronnie balançou sua cabeça, perguntando-se o porquê ela continuava
pensando nele. Eles haviam terminado, isso assumindo algo que eles
nem haviam começado. Por que ele tinha estado interessado nela? Ele
tinha ficado com Ashley por um longo tempo, o que queria dizer que ele
gostava do tipo dela. Se havia uma coisa que ela tinha aprendido, é que
as pessoas não mudam. Eles gostam do que gostam, mesmo que não
entendam o motivo. E ela não era nada parecida com Ashley.
Sem discussão, sem debate. Porque se ela fosse como Ashley, ela
poderia muito bem começar a nadar em direção ao horizonte, ate que
toda possibilidade de resgate não existisse mais. Ela poderia terminar
com isto agora.
Ainda assim, não era isso que a incomodava mais. O que a incomodava
era sua mãe. Ela estava ouvindo, sem duvida nenhuma, sobre a prisão, já
que seu pai estava no telefone neste momento. A idéia a fez se encolher.
Sua mãe estaria, sem duvidas, gritando. Assim que ela desligasse com
papai, iria ligar para sua irmã ou sua mãe, para contar as novidades sobre
a nova coisa horrível que Ronnie havia feito. Elas estavam por dentro de
todas as coisas pessoas de Ronnie, com exagero excessivo de sua mãe,
fazendo-a parecer mais culpada do que era possível. Sua mãe sempre
negligenciava os “poréns”, e neste caso, o mais importante “porém” era de
que ela não tinha culpa!
Mas isso importava? Claro que não. Ela podia sentir a raiva de sua mãe,e
a coisa estava lhe causando dor no estomago. Talvez fosse uma boa
coisa que ela não pudesse ir para a casa hoje. Atrás dela, ela ouviu seu
pai se aproximando. Ela olhou por cima do ombro, e ele hesitou. Ela sabia
que ele estava tentando descobrir se ela queria ficar sozinha. Ele sentou
cuidadosamente ao lado dela, e não disse nada de imediato. Parecia
estar assistindo a uma pesca de camarão em um barco ancorado no
horizonte.
“Ela estava zangada?”
Ela já sabia a resposta, mas não pode evitar perguntar.
“Um pouco” ele admitiu.
“Só um pouco?”
“Eu tenho quase certeza que ela deu uma de Godzilla na cozinha
enquanto conversávamos”
Ronnie fechou os olhos, tentando imaginar a cena. “Você disse a ela o
que realmente aconteceu?”
“Claro que sim. E eu garanti a ela que eu tenho certeza de que você esta
falando a verdade” Ele colocou um braço ao redor dos ombros dela,
abraçando-a. “Ela vai superar. Ela sempre supera”
Ronnie assentiu. Em silencio, ela podia sentir seu pai estudando-a.
“Sinto muito que você não possa ir para casa hoje” Sua voz era macia.
“Eu sei o quanto você odeia isso aqui”
“Eu não odeio isso aqui” Ela disse, automaticamente. Surpreendendo a si
mesma, ela percebeu que mesmo que estivesse tentando se convencer
do contrario, ela estava falando a verdade. “É que eu não pertenço a este
lugar”
Ela lançou-lhe um sorriso melancólico. “Se serve de consolo, enquanto eu
crescia, também sentia que não pertenci aqui. Eu sonhava em ir para
Nova York. Mas é estranho, quando eu finalmente escapei desse lugar,
acabei sentindo mais falta daqui do que achei que sentiria.
Tem algo no oceano que me chama.”
Ela virou-se para ele. “O que vai acontecer comigo? O oficial Pete disse
algo mais?”
“Não. Disse apenas que os donos sentiram-se na obrigação de prestar
queixa, pois os itens eram valiosos e ela poderia ter muitos problemas
com roubos, depois”
“Mas eu não os roubei” Ronnie choramingou.
“Eu sei disso, e nós vamos acertar tudo. Vamos achar um bom advogado
e começar daí”
“Advogados são caros?”
“Os bons, são” ele disse.
“E você pode bancar isso?”
“Não se preocupe. Eu vou dar um jeito” Ele se calou. “Posso te fazer uma
pergunta? O que você fez para deixar Blaze tão chateada? Você nunca
me contou”
Se fosse sua mãe perguntando, ela nunca responderia. Ela também não
teria respondido seu pai, se fosse dois dias atrás. Agora, ela não via
nenhuma razão para não responder.
“Ela tem esse namorado esquisito e assustador, e ela acha que eu quero
roubá-lo dela. Ou algo semelhante”
“O que você quer dizer com estranho e assustador?”
Ela ficou quieta por um momento. Na beira da água, as primeiras famílias
foram chegando, carregando toalhas e brinquedos. “Eu o vi na noite
passada.” Ela apontou para baixo, na praia. “Ela estava parado bem ali,
enquanto eu conversava com Will”
Seu pai não tentou esconder a preocupação “Mas ele não tentou se
aproximar...”
Ela balançou a cabeça. “Não, mas tem algo estranho nele... Marcus...”
“Talvez você deva manter distancia desses dois. Blaze e Marcus.”
“Não se preocupe. Eu não estava planejando falar com nenhum dos dois
novamente.”
“Você quer que eu ligue para Pete? Sei que você não teve uma boa
experiência com ele...”
Ronnie balançou a cabeça. “Ainda não. E acredite ou não, eu não estou
chateada com Pete. Ele esta apenas fazendo seu trabalho, e na verdade,
ele vem sendo bastante compreensível com a coisa toda. Acho que ele
sente pena de mim”
“Ele me disse que acredita em você. E esse foi o motivo pelo qual ele foi
falar com os donos”
Ela sorriu, pensando em como era bom falar com seu pai assim. Por um
instante, ela imaginou quão diferente sua vida poderia ter sido se ele não
tivesse ido embora. Ela hesitou, pegando um bocado de areia e deixando
escorrer pelos seus dedos.
“Porque você nos deixou, pai?” ela perguntou “E eu sou velha o suficiente
para a verdade, ok?”
Seu pai esticou as pernas, obviamente tentando comprar tempo. Ele
parecia estar lutando com algo, tentando descobrir o quanto dizer a ela e
por onde começar, antes de começar com o óbvio.
“Depois que parei de ensinar em Julliard, eu fiz todos os shows que eu
podia. Era meu sonho, sabe? Ser um pianista famoso. Enfim... Acho que
eu deveria ter pensado mais sobre a realidade da situação antes de tomar
a decisão. Mas não. Eu não percebi como seria difícil para sua mãe” Ele
olhou seriamente para ela. “No fim, nos acabamos nos afastando.”
Ela observou-o enquanto ele falava, tentando ler entre as linhas.
“Tinha um outro alguém, não tinha?” A voz dela era inflexível.
Seu pai não respondeu, e seu olhar se afastou. Ronnie sentiu um peso
dentro dela. Quando ele finalmente falou, ele parecia cansado. “Eu sei
que deveria ter tentado mais para salvar o casamento, e eu sinto muito
sobre isso. Mais do que você pode imaginar. Mas eu quero que você
saiba algo, ok? Eu nunca deixei de acreditar em sua mãe. Eu nunca
deixei de acreditar na resistência do nosso amor. Mesmo que não tenha
dado certo do jeito que eu e você gostaríamos, eu vejo você e Jonah e
penso o quão sortudo eu sou por ter vocês como filhos. Em uma vida
cheia de erros, vocês dois são as melhores coisas que aconteceram para
mim.”
Quando ele terminou, ela encheu a mão de areia outra vez, deixando
escorrer pelos seus dedos, sentindo-se cansada novamente. “O que eu
vou fazer?”
“Você fala de hoje?”
“Eu falo de tudo”
Ela sentiu seu pai descansar a mão gentilmente em suas costas. “Eu acho
que seu primeiro passo deveria ser conversar com ele”
“Quem?”
“Will” ele disse “Você se lembra de quando vocês passaram pela casa
ontem? Quando eu estava parado na varanda? Eu estava observando
vocês, pensando em quão natural vocês dois parecem quando estão
juntos”
“Você nem mesmo o conhece” Ronnie disse, sua voz uma mistura de
surpresa e maravilha.
“Não” ele disse. Ele sorriu afetuosamente. “Mas eu conheço você, e você
estava feliz ontem”
“E se ele não quiser falar comigo?”
“Ele quer”
“E como você sabe?”
“Porque eu estava observando, e ele parecia feliz também.”
Para na entrada da Blakelee Brakes, ela conseguia pensar que não queria
fazer aquilo. Ela não queria encará-lo. Só que ela meio que queria sim, e
sabia então que não tinha outra opção. Ela sabia que não tinha sido justa
com ele e ele merecia saber o que Ashley havia dito. Ele tinha esperado
fora da casa dela por horas, certo?
Além do mais, ela tinha que admitir que seu pai tinha razão. Ela se
divertia muito com Will, pelo menos o máximo de diversão que se podia
conseguir em um lugar como aquele. E tinha algo sobre ele que o fazia
diferente dos garotos que ela conhecia. Não só porque ele jogava vôlei,
ou porque tinha o corpo de um atleta e era mais inteligente do que
aparentava.
Ele não tinha medo dela. Tantos rapazes simplesmente rodavam esses
dias, pois achavam que ser bons era tudo que importava. E importava
sim, mas não se o cara igualava ser legal com ser um capacho. Ela
gostou de como ele tinha levado-a para pescar, mesmo que ela não
quisesse. Foi o jeito com que ele falou com ela, "Esse é quem eu sou, e
isso é o que eu gosto, e de todas as pessoas que eu conheço, é com
você que quero aproveitar". Muitas vezes, quando um garoto a chamava
para sair, ia buscá-la sem a menor idéia de para onde iriam, normalmente
forçando-a a escolher um lugar. Isso era tão sem graça. Will era tudo,
menos sem graça, e ela não podia evitar gostar dele por causa disso.
O que siginificava, é claro, que ela tinha que consertar as coisas.
Preparando-se para o caso dele ainda estar com raiva, ela entrou na loja.
Will e Scott estavam trabalhando debaixo de um elevador para carros.
Scott disse algo para Will, que se virou e a viu, mas não sorriu. Ao invés
disso, ele limpo suas mãos em um pano e foi em sua direção. Ele parou a
um passo dela. De perto, sua expressão era ilegível. "O que você quer?"
Não era exatamente a abertura que ela queria, mas também não era
inesperado.
"Você estava certo", ela disse. "Ontem, eu saí do jogo porque Ashley
disse que eu era sua mais recente conquista. Ela também insinuou que eu
não era a primeira, que nosso dia juntos - e todas as coisas que fizemos e
lugares onde fomos - eram truques que você usava com todas as
garotas."
Will continuava encarando-a. "Ela mentiu"
"Eu sei"
"Então porquê você me deixou esperando fora de sua casa por horas? E
porquê você não disse nada ontem?"
Ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, sentindo a vergonha
subir em seu peito, mas tentando não demonstrar. "Eu estava com raiva e
chateada. E eu ia falar para você, mas você foi embora e eu nao tive
como"
"Você está dizendo que é minha culpa?"
"Não, de jeito nenhum. Tem muitas coisas que estão acontecendo que
não tem nada a ver com você. Os últimos dias tem sido difícieis". Ela
passou a mão pelos cabelos. Estava tão quente ali dentro.
Will levou um momento para absorver o que ela tinha dito. "Porquê você
acreditaria nela, em primeiro lugar? Você nem a conhece"
Ela fechou os olhos. Porquê? Ela se perguntou. Porque eu sou uma
idiota. Porque eu deveria ter confiado em meus instintos sobre ela. Mas
ela não disse essas coisas. Ela só sacudiu a cabeça. "Eu não sei"
Quando ela não parecia mais disposta a falar nada, ele enfiou as mãos no
bolso. "Isso é tudo que você veio dizer? Porque eu tenho que voltar ao
trabalho"
"Eu também vim me desculpar", ela disse, com a voz deprimida, "Sinto
muito. Eu exagerei"
"Sim, você exagerou", Will rebateu, "Você foi completamente irracional.
Algo mais?"
"E eu também queria que você soubesse que eu tive um ótimo dia ontem.
Bem, pelo menos até o final"
"Ok"
Ela não tinha certeza do que ele quis dizer, mas quando ele lançou-lhe um
breve sorriso, ela começou a relaxar.
"'Ok'? É isso? É tudo que você vai me dizer depois de eu ter vindo até
aqui pedir desculpas? ‘Ok'?"
Em vez de responder, Will deu um passo em direção a ela, e então, tudo
aconteceu tão rápido que nem fez sentido. Um segundo atrás ele estava
distante dela, e então, ele colocou uma mão no quadril dela e a puxou
para perto. Inclinando-se, ele a beijou. Seus lábios eram macios, e ele era
surpreendentemente gentil. Talvez tenha sido porque ele a pegou de
surpresa, mas ela se viu retribuindo o beijo. O beijo não durou muito, e
não foi um beijo de sacudir-a-terra ou de destruir-a-alma como os do
filmes; mesmo assim, ela estava feliz de ter acontecido, e qualquer que
fosse o motivo, ela percebeu que era exatamente isso que ela queria que
ele fizesse.
Quando ele se afastou, Ronnie sentiu o sangue esquentar em suas
bochechas. Sua expressão era meio séria, e não tinha nada de sem graça
nisso.
"Na próxima vez que você estiver chateada, você fala comigo", ele disse.
"Não me afaste. Eu não gosto de joguinhos. E eu tive um ótimo dia
também."
Ronnie ainda sentia-se um pouco sem equilíbrio enquanto caminhava
para casa.
Relembrando o beijo mil vezes, ela ainda não tinha certeza de como tinha
acontecido. Mas ela tinha gostado. E muito. Ele deveriam ter feitos planos
de quando se veriam novamente, mas com Scott os observando de boca
aberta, pareceu mais fácil dar um rápido beijo nele e deixá-lo voltar ao
trabalho. Mesmo assim, ela tinha certeza de que eles se veriam
novamente, provavelmente logo.
Ele gostava dela. Ela não tinha certeza porque ou como tinha acontecido,
mas ele gostava. O pensamento era maravilhoso, e ela desejou que Kayla
estivesse ali para conversarem. Ela supôs que deveria ligar para ela mas
não seria o mesmo, e além do mais, ela nao teria certeza do que falar. Ela
imaginou que apenas queria alguém para ouvi-la. Enquanto ela se
aproximava da casa, a porta da oficina se abriu e Jonah saiu em direção a
casa.
"Hei Jonah", ela chamou.
"Oh, oi Ronnie", Jonah virou e começou a caminhar em direção a ela.
Quando chegou perto, ele parecia estar astudando-a. "Posso te fazer uma
pergunta?"
"Claro"
"Você quer um biscoito?"
"O quê?"
"Um biscoito. Tipo, um Oreon. Você quer um?"
Ela não tinha ideia de para onde isto ia chegar, pela simples razão de que
o cérebro do seu irmão corria em linhas perpendiculares, e não paralelas,
para ela. Ela respondeu com cuidado. "Não"
"Como você pode não querer um biscoito"
"Eu só não quero"
"Ok, tudo bem", ele disse, acenando, "Vamos dizer que você queira um
biscoito. Vamos dizer que você está morrendo por um biscoito, e há varios
deles dentro da lata. O que você faria?"
"Eu comeria um biscoito?" Ela sugeriu
Jonah estalou o dedo. "Exatamente. É disso que estou dizendo"
"O que você está dizendo?"
"Que se as pessoas querem biscoito, elas deveriam ter o biscoito. É o que
as pessoas fazem"
Aha, ela pensou. Agora tudo fazia sentido. "Deixe-me adivinhar. Papai não
deixou você comer biscoito?"
"Não. Mesmo eu estando morrendo de fome, ele nem considerou. Ele
disse que tenho que comer um saduíche primeiro"
"E você não acha isso justo"
"Você mesmo disse que se você quer um biscoito, você teria um. Então
porque eu não posso? Eu não sou uma criança pequena. Eu posso tomar
minhas próprias decisões." Ele a encarou seriamente.
Ela colocou um dedo no queixo. "Hmm. Posso ver o porque isso te
incomoda tanto"
"Não é justo. Se ele quer um biscoito, ele pode ter um biscoito. Se você
quer um biscoito, você pode ter o biscoito. Mas se eu quero um biscoito,
as regras não valem. Como você disse, não é justo"
"E então, o que você vai fazer?"
"Eu estou indo comer um sanduíche. Porque eu tenho que comer. Porque
o mundo não é justo para quem tem dez anos."
Ele saiu sem esperar resposta. Ela teve que sorrir enquanto o via indo.
Talvez mais tarde, ela pensou, ela o levaria para tomar um sorvete. Por
um momento, ela pensou se deveria segui-lo ate a casa, então mudou de
idéia e foi até a oficina. Ela imaginou que já era hora de ver a janela de
qual tanto ouvira falar.
Da porta, ela podia ver seu pai soldando algum ferro.
"Olá querida. Entre"
Ronnie entrou pela primeira vez na oficina. Ela franziu o nariz para os
animais nas prateleiras, e seu olhar foi até a mesa, onde ela viu a janela.
O que ela podia dizer é que eles tinham um logo caminho a percorrer. Não
tinha nem um quarto da janela completo, e se um padrão estivesse sendo
seguido, ainda haviam muitos pedaços faltando.
Depois de terminar com um dos pedaços, seu pai ficou em pé e ajeitou os
ombros. "Esta mesa é um pouco baixa para mim, vou ficar dolorido
depois"
"Você quer um Tylenol?"
"Não, estou apenas ficando velho. Tylenol não pode fazer muito por isso,
né?"
Ela sorriu antes de se afastar da mesa. Pregado na parede, ao lado de
um artigo sobre o incêndio, estava uma foto da janela. Ela se aproximou
para observar, antes de se virar para ele. "Eu conversei com ele", ela
disse, "Eu fui até a oficina onde ele trabalha"
"E?"
"Ele gosta de mim"
"Ele deveria. Você é um bom partido"
Ronnie sorriu, sentindo-se agradecida. Ela tentou, mas não conseguiu
lembrar se ele sempre foi tão legal. "Por que você está fazendo a janela
para a igreja? É o porquê o pastor Harris deixou você ficar na casa?"
"Não, eu teria feito de qualquer maneira..." Ele se calou. Ronnie olhava
para ele com expectativa. "É uma longa história. Tem certeza que quer
ouvi-la?"
Ela acenou.
"Eu tinha seis ou sete anos quando entrei na igreja do pastor Harris pela
primeira vez. Eu me refugiei da chuva lá - era um temporal e eu estava
ensopado. Quando ouvi que ele estava tocando piano, lembro-me de ter
pensando que ele não me deixaria ficar. Mas ele deixou, e me trouxe um
cobertor e uma caneca de sopa, e ligou para minha mãe para que ela
fosse me buscar. Antes dela chegar, ele me deixou tocar piano. Eu era
apenas uma criança batendo nas teclas, mas... Enfim, eu acabei voltando
lá no dia seguinte e ele se tornou meu primeiro professor de piano. Ele
tinha um grande amor pela música e costumava me dizer que uma bela
canção era semelhante a anjos cantando. Eu ia a igreja todos os dias e
tocava por horas embaixo da janela original, com a luz celestial caindo em
cascata ao redor de mim. Essa é a imagem que eu sempre vejo quando
me lembro das horas que passei lá. Essa bela inundação de luz. Há
alguns meses atrás, quando a igreja pegou fogo..."
Ele apontou o artigo na parede. "O pastor Harris quase morreu naquela
noite. Ele estava lá dentro fazendo uma revisão de último minuto em seu
sermão, e ele quase não saiu. A igreja... queimou e em um minuto estava
no chão. Pastor Harris esteve no hospital durante um mês, e desde então
ele vem mantendo seus serviços em um antigo armazém que alguém está
deixando-o usar. É sujo e escuro, mas eu descobri que é apenas
temporário, até que ele me disse que o seguro só cobria metade do dano,
e não havia nenhuma maneira de arcar com uma nova janela. Eu não
consegui imaginar isso. A igreja não seria o mesmo lugar que eu me
lembro e não seria direito. Então eu vou terminar", ele limpou a garganta,
“Eu preciso terminar”
Enquanto ele falava, Ronnie se pegou tentando imaginar seu pai quando
criança, sentado ao piano da igreja, seu olhar flutuando dele para o
recorte na parede.
“Você está fazendo uma boa coisa”
“É, bem... Vamos ver como fica quando terminar. Mas Jonah parece estar
gostando de trabalhar nisso”
“Por falar em Jonah, ele está bastante chateado com a fato de você não
deixá-lo comer biscoitos”
“Ele precisava almoçar primeiro”
Ela sorriu. “Eu não estou discutindo. Eu achei divertido”
“Ele te disse que já comeu dois biscoitos hoje?”
“Acredito que ele não tenha mencionado isso”
“Imaginava”, ele colocou suas luvas sobre a mesa. “Você quer almoçar
com a gente?”
“Sim. Acho que sim”
Eles foram para a porta juntos. “A propósito, eu terei a chance de
conhecer o jovem rapaz que gosta da minha filha?”
Ela passou por ele, em direção ao sol. “Provavelmente”
“Que tal convidá-lo para jantar? E depois nós poderíamos fazer... você
sabe, o que costumamos fazer.”
Ronnie pensou sobre isso. “Eu não sei pai. Pode estar muito quente”
“Ok, vou deixar você decidir.”
......

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