terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Capitulo 16

16
...♪...
Steve
Steve olhou para cima quando Ronnie entrou. Embora ela tenha
esboçado um sorriso, tentando mostrar que estava tudo bem, ele não
pôde deixar de notar sua expressão enquanto pegava seu livro e ia para a
cama.
Algo definitivamente estava errado. Ele só não tinha certeza do que era.
Ele não saberia dizer se ela estava zangada, ou triste ou assustada e
enquanto ele debatia a idéia de tentar conversar com ela, ele teve a
certeza de que fosse lá o que estivesse acontecendo, ela queria lidar com
aquilo sozinha. Ele supôs que era normal. Ele não havia passado muito
tempo com ela recentemente, mas ele ensinou adolescentes durante anos
e ele sabia que quando as crianças queriam falar algo – quando tinham
algo importante a dizer – era quando seu estomago começava a doer.
“Hei, Pai” disse Jonah.
Enquanto Ronnie estava do lado de fora, ele proibiu Jonah de ficar
olhando pela janela. Pareceu à coisa certa a se fazer, e Jonah percebeu
que era melhor não discutir. Ele encontrou Bob Esponja passando em
algum canal, e passou os últimos dez minutos assistindo tranquilamente.
“Sim?”
Jonah levantou-se, sua expressão séria. “O que é que tem um olho, fala
francês e adora comer biscoitos antes de dormir? ”
Steve considerou a questão. “Eu não faço idéia”.
Jonah tapou um olho com a mão e chegou mais perto. “Moi”
* “eu” em Francês
Steve riu enquanto levantava do sofá, e colocava sua Bíblia de lado. O
garoto o tinha feito gargalhar. “Vamos, eu tenho alguns biscoitos na
cozinha”.
“Eu acho que Ronnie e Will brigaram”
“Este é o nome dele?”
“Não se preocupe, eu o verifiquei”
“Ah” Steve disse. “E porque você acha que eles brigaram?”
“Eu podia ouvi-los. Will parecia chateado”
Steve franziu a testa “Pensei que você estava assistindo desenho“
“Eu estava, mas eu podia ouvi-los mesmo assim”, Jonah disse
naturalmente.
“Você não deveria ouvir a conversa dos outros” Steve repreendeu Jonah.
“Mas é interessante, às vezes”
“Continua sendo errado”
“A mamãe tenta ouvir as conversas de Ronnie quando ela está no
telefone. E ela pega o celular de Ronnie enquanto ela esta no banho para
ler suas mensagens de texto”.
“Ela faz isso?” Steve tentou não parecer muito surpreso.
“Claro. De que outra maneira ela teria controle sobre Ronnie?”
“Não sei... Talvez elas pudessem conversar”
“Ah claro” Jonah Bufou “Nem mesmo Will consegue conversar com ela
sem discutir. Ela enlouquece as pessoas”.
Quando Steve tinha doze anos, ele tinha poucos amigos. Entre ir à escola
e praticar piano, ele tinha um tempo livre, e a pessoa com quem ele mais
se via conversando era o Pastor Harris. Naquele momento da sua vida, o
piano se tornou uma obsessão, e muitas vezes Steve praticava de quatro
a seis horas por dia, perdido em seu próprio mundo de melodias e
composições. Neste tempo, ele venceu inúmeras competições locais e
nacionais. Sua mãe havia participado apenas da primeira, e seu pai nunca
foi em nenhuma. Ao invés deles, ele encontrava a si mesmo sentado no
banco da frente do carro, ao lado do Pastor Harris, enquanto viajavam
para Raleigh, ou Charlotte, ou Washington.
Eles passavam horas conversando e embora o pastor fosse um homem
religioso, que usava a palavra de Cristo na maioria das vezes, as
conversas soavam tão natural como alguém de Chicago comentando a
inutilidade dos jogos de baseball. Pastor Harris era o tipo de homem que
levava uma vida atormentada. Ele levou a sério seu chamado, e quase
todas as noites, ele cuidava de seu rebanho, em um hospital, ou em uma
casa funerária, ou na casa de membros da igreja que ele passou a
considerar como amigos.
Ele ministrava casamentos e batizados aos fins de semanas. Ele tinha
comunhão nas noites de quarta feira, e coro as quintas e terças feiras.
Mas em todo entardecer, uma hora antes do crepúsculo, não importando
como o clima estivesse ele reservava uma hora para andar na praia
sozinho. Quando ele voltava, Steve se pegava pensando com freqüência
que àquela hora de solidão era exatamente o que o pastor precisava.
Tinha algo tranqüilo e pacífico em sua expressão sempre que ele
retornava dessas caminhadas. Steve sempre presumiu que era isso que o
pastor fazia em busca de um pouco de solidão – até que perguntou a ele.
“Não” o pastor disse “Eu não ando na praia para ficar sozinho, pois isto
não seria possível. Eu caminho e converso com Deus.”
“Você quer dizer rezar?”
“Não, eu digo conversar, Nunca se esqueça que Deus é seu amigo. E
como todos os amigos, Ele anseia para ouvir o que está acontecendo em
sua vida. Bom ou ruim, se você está triste ou com raiva, e mesmo quando
você questiona sobre as coisas terríveis que acontecem... Então, eu
converso com ele.”
“E o que você fala?”
“Sobre o que você fala com seus amigos?”
“Eu não tenho amigos” Steve deu um sorriso torto. “Pelo menos, nenhum
com quem eu possa conversar”
O pastor colocou uma mão em seu ombro, tranqüilizando-o. “Você tem a
mim”. Quando ele não respondeu, o pastor deu uma leve sacudida no
ombro “Nós conversamos da mesma maneira que eu e você”
“E Ele responde?” Steve foi cético.
“Sempre”
“Você o escuta?”
“Sim” ele disse “mas não com meus ouvidos”. Ele colocou a mão em seu
peito “É aqui que escuto Suas respostas. É aqui que sinto Sua presença”.
Depois de beijar Jonah na bochecha e colocá-lo na cama, Steve parou na
porta para observar sua filha. Surpreendendo a ele, Ronnie estava
dormindo quando eles entraram no quarto, e o que quer que fosse que
estava aborrecendo-a, não estava mais em evidência.
Sua expressão estava relaxada, seu cabelo caia em cascata pelo
travesseiro e tinha os dos braços dobrados próximo ao peito. Ele pensou
se deveria dar um beijo de boa noite, mas decidiu por não interrompê-la
em seus sonhos, os deixando irem onde deveriam. Ainda assim, ele não
conseguia ir. Tinha algo de relaxante em observar seus filhos dormirem, e
enquanto Jonah rolava para fora da luz do corredor, ele imaginou quanto
tempo fazia desde que ele havia dado um beijo de boa noite em Ronnie.
Cerca de um ano antes dele se separar de Kim, Ronnie atingiu a idade
onde essas coisas tornavam-se embaraçosas. Ele recordava-se
nitidamente da primeira noite que ele disse que iria em seu quarto e ela
respondeu: “Não precisa, eu ficarei bem”. Kim olhou para ele com uma
expressão de tristeza: ela sabia que ela estava crescendo, mas mesmo
assim, o fim da infância dela deixava-a com dor no coração. Ao contrário
de Kim, Steve não lamentava o fato de que Ronnie estava crescendo.
Pensou em sua vida, com a mesma idade, e lembrou-se de tomar suas
próprias decisões. Lembrou-se de formar suas próprias opiniões sobre o
mundo, e seus anos como professor apenas reforçaram a idéia de que
mudar não só era inevitável, mas que também trazia suas recompensas.
Houve momentos em que ele se encontrava com algum aluno na sala de
aula, e ouvia sobre a luta da criança com seus pais, sobre como sua mãe
tentou ser sua amiga, ou como seu pai tentou controlá-lo. Os outros
professores pareciam achar que ele tinha uma afinidade natural com os
estudantes, e ele ficou surpreso ao descobrir que os estudantes também
se sentiam assim. Ele não sabia o porquê. Na maioria das vezes, ele
ouvia em silêncio, ou reformulava as perguntas deles, forçando-os a
tirarem suas próprias conclusões, confiante de que na maioria das vezes,
estas eram as corretas. Mesmo quando sentia necessidade de dizer algo,
eram comentários genéricos, do tipo de psicólogo no divã. “É claro que
sua mãe quer ser sua amiga”, ele dizia, “ela está começando a ver você
como um adulto e quer saber mais sobre isso”. Ou “Seu pai sabe que
cometeu erros na vida, e não quer que você faça o mesmo”.
Pensamentos comuns de um homem comum, mas para seu espanto, às
vezes os alunos voltavam-se para a janela, absortos em pensamentos,
como se Steve tivesse dito algo realmente profundo. Algumas vezes, ele
chegou a receber ligações de pais de estudantes, para agradecê-lo por
falar com seus filhos, notando que a criança estava em melhor estado de
espírito ultimamente.
Quando desligava o telefone, ele tentava lembrar do que havia dito, na
esperança de notar que havia sido mais perspicaz do que achava, mas
não conseguia enxergar nada demais.
No silêncio do quarto, Steve ouviu a respiração de Jonah começar a
abrandar, e sabia que seu filho tinha adormecido. O sol e o ar fresco
pareciam cansá-lo de uma maneira que Manhattan nunca poderia.
Quanto a Ronnie, ele estava aliviado de que o sono havia apagado a
tensão dos últimos dias. Seu rosto estava sereno, quase angelical, e de
alguma forma lembrava da expressão do pastor Harris após suas
caminhadas na praia. Observou-a na quietude absoluta do quarto,
desejando novamente um sinal da presença de Deus. Ronnie poderia
estar deixando-o amanhã, e com este pensamento, deu um passo
hesitante em direção a ela. A luz das estrelas distantes cintilou, como se
Deus estivesse anunciando sua presença em outro lugar. De repente, ele
se sentiu cansado. Ele se sentiu sozinho, ele sempre seria sozinho.
Curvou-se sobre Ronnie e lhe beijou suavemente no rosto, sentindo
novamente a intensidade de seu amor por ela, uma alegria tão intensa
quando a dor.
Antes do amanhecer, ele acordou com o pensamento – mais um
sentimento, na verdade – de que ele sentia falta de tocar piano. Ele sentiu
necessidade de correr a sala e perder-se em sua musica. Ele se
perguntava quando teria a oportunidade de tocar de novo. Agora ele se
arrependia de não ter amigos na cidade; Ele podia ver a si mesmo
sentando no banco do piano, enquanto seus amigos assistiam da cozinha
ou da varanda, e ele começaria a tocar algo que levaria seus amigos às
lagrimas, algo que ele tinha sido incapaz de tocar durante todo o tempo
em que esteve na turnê.
Ele sabia que era uma fantasia ridícula, mas sem sua música, ele estava
sem rumo. Levantando-se da cama, ele afastou esses pensamentos
escuros. O pastor Harris havia lhe dito que um novo piano tinha sido
ordenado para a igreja, e que Steve era bem vindo para tocá-lo assim que
chegasse. Mas isto não aconteceria até o fim de julho, e ele não tinha
certeza se poderia fazê-lo até lá. Em vez disso, ele sentou em uma
cadeira e colocou as mãos em cima da mesa da cozinha. Com bastante
concentração, ele seria capaz de ouvir a música em sua mente.
Beethoven compôs a Eroica quando era completamente surdo, certo?
Talvez ele pudesse ouvir tudo em sua cabeça, assim como Beethoven.
Ele escolheu o concerto que Ronnie havia tocado no Carnegie Hall,
fechou os olhos e se concentrou. As cepas foram fracas quando ele
começou a mover seus dedos. Gradualmente, as notas e acordes
tornaram-se claras e distintas, e mesmo que isso não fosse tão
satisfatório como tocar piano, ele sabia que era assim que teria que fazer.
Com as frases finais do concerto reverberando em sua mente, ele abriu
os olhos devagar, e encontrou-se sentado em sua cozinha semi-escura. O
sol nasceria no horizonte em alguns minutos, e por algum motivo, ele
ouviu o som de uma única nota acenando para ele. Ele sabia que era só
imaginação, mas o som da nota se demorou, e ele se viu desesperado
por caneta e papel. Ele rabiscou um esboço antes de pressionar o dedo
sobre a mesa novamente. Mais uma vez soou, e desta vez seguido por
mais algumas notas. Ele rabiscou novamente.
Ele escreveu musicas durante toda sua vida. Isto talvez não tenha sido
muito, mas agora ele sentia-se aquecido e pronto para o desafio. E se ele
fosse capaz de compor algo inspirador? Algo que seria lembrado por
muito tempo depois que ele fosse esquecido?
A fantasia não durou muito tempo. Ele tentou e falhou no passado, e ele
não tinha duvidas de que falharia novamente. Mesmo assim, ele se sentiu
bem sobre o que tinha acontecido. Havia algo mágico em criar algo do
nada. Embora ele não tenha ido muito longe na melodia – depois de muito
trabalho, ele decidiu voltar as primeiras notas e recomeçar – ele sentia-se
satisfeito.
Como o sol na crista das dunas, Steve refletiu sobre seus pensamentos
da noite anterior e decidiu ir a um passeio na praia. Mais do que tudo, ele
queria voltar para casa com o
mesmo olhar de paz que tinha visto no rosto de Pastor Harris, mas como
ele se arrastava pela areia, ele não poderia deixar de se sentir como um
amador, alguém que procura as verdades de Deus como uma criança
procura por conchas.
Teria sido bom se ele tivesse sido capaz de detectar um sinal evidente da
sua presença, mas em vez disso ele tentou se concentrar no mundo em
torno dele: o sol se levantando do mar, o gorjeio dos pássaros da manhã,
o nevoeiro persistente em cima da água. Ele se esforçou para absorver a
beleza sem pensamentos conscientes, tentando sentir a areia debaixo
dos seus pés e a brisa que acariciou sua bochecha. Apesar de seus
esforços, ele não sabia se ele estava ficando mais perto de sua resposta
do que quando ele começou.
O que foi, pensou pela centésima vez, que permitiu que o pastor Harris
ouvisse as
respostas em seu coração?
O que ele quis dizer quando ele disse que sentiu a presença de Deus?
Steve supôs que ele poderia perguntar diretamente, mas ele duvidava que
iria fazer algum bem. Como alguém poderia explicar uma coisa dessas?
Seria como descrever as cores para um cego de nascença: As palavras
podem ser entendidas, mas o conceito permaneceria misterioso e privado.
Era estranho para ele tais pensamentos. Até recentemente, ele nunca
tinha sido afetado por tais perguntas, mas ele figurou suas
responsabilidades diárias que sempre o mantiveram ocupado o suficiente
para evitar pensar sobre elas, pelo menos até que ele voltou para
Wrightsville Beach. Aqui, o tempo tinha abrandado com o ritmo de sua
vida.
Como ele continuou a caminhar pela praia, ele refletiu novamente sobre a
fatídica decisão que ele tinha feito para tentar a sorte como um pianista de
concerto. É verdade que ele sempre quis saber se ele poderia ter tido
sucesso, e sim, ele sentiu que o tempo estava se esgotando. Mas como
aqueles pensamentos adquiriram tal urgência, ao mesmo tempo?
Por que ele tinha estado tão disposto a deixar sua família por meses?
Como, ele perguntou, ele poderia ter sido tão egoísta? Em retrospecto,
provou que não foi uma decisão sábia para nenhum deles. Ele pensou
que sua paixão pela música tinha forçado a decisão, mas agora ele
suspeitava que ele realmente foi à procura de maneiras de preencher a
vazio que às vezes sentia dentro dele.
E como ele andou, ele começou a se perguntar se foi nesta constatação
de que ele teria
eventualmente encontrar sua resposta.
......

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