sábado, 20 de novembro de 2010

A ultima música - prólogo

Prólogo
...♪...
Ronnie
Enquanto olhava pela janela do quarto, Ronnie se perguntava se o Pastor
Harris já estava na igreja. Ela presumiu que sim, e enquanto observava o
quebrar das ondas na praia, ela se perguntou se ele ainda era capaz de
notar o jogo de luzes produzido pelo vitral acima dele. Talvez não —
afinal, a janela fora instalada há mais de um mês e ele provavelmente
estaria muito ocupado para reparar. Ainda assim, ela esperava que
alguém novo na cidade tivesse tropeçado para dentro da igreja essa
manhã e vivenciado a mesma sensação de deslumbramento que ela
vivenciou na primeira vez que viu a luz inundar a igreja naquele dia frio de
Dezembro. E ela esperava que o visitante tivesse dedicado algum tempo
para considerar sua origem e admirar sua beleza.
Ela estava acordada havia uma hora, mas não estava preparada para
enfrentar o dia. As festividades pareciam diferentes naquele ano. Ontem,
ela levou seu irmão mais novo, Jonah, para um passei na praia. Aqui e ali,
árvores de Natal se encontravam nos deques das casas por onde
passaram. Nessa época do ano, eles tinham praticamente a praia toda
para eles mesmos, mas Jonah não demonstrou interesse nas ondas ou
nas gaivotas que o haviam fascinado há alguns meses atrás. Em vez
disso, ele queria ir para a oficina e ela o levava, ainda que ele ficasse
apenas alguns minutos antes de ir embora sem dizer uma única palavra.
Na cabeceira da cama havia uma série de fotos do seu quarto na casa de
praia, junto com outros itens que ela havia coletado essa manhã. Em
silêncio, ela as estudou até que fora interrompida por uma batida na porta.
Sua mãe espreitou sua cabeça para dentro do quarto.
“Você quer café da manhã? Eu encontrei alguns cereais no armário da
cozinha.”
“Não estou com fome, Mãe.”
“Você precisa comer, querida.”
Ronnie continuava olhando para a pilha de fotos, vendo nada em
especial. “Eu estava errada, Mãe. E não sei o que fazer agora.”
“Você se refere ao seu pai?”
“Me refiro a tudo.”
“Quer falar sobre isso?”
Quando Ronnie não respondeu, sua mãe atravessou o quarto e se sentou
do lado dela.
“Alguma vezes ajuda se você botar pra fora. Você tem estado tão quieta
nesses últimos dias.”
Por um instante, Ronnie sentiu uma onda de memórias inundá-la: o
incêndio e a subsequente reconstrução da igreja, o vitral, a música que
ela finalmente terminou. Ela pensou em Blaze e Scott e Marcus. Ela
pensou em Will. Ela tinha dezoito anos e se recordava do verão em que
fora traída, o verão em que fora presa, o verão em que se apaixonou. Não
tinha sido há muito tempo atrás, e ainda assim, ela se sentia uma pessoa
completamente diferente daquela época.
Ronnie suspirou. “E o Jonah?”
“Não está aqui. Brian o levou na loja de sapatos. Ele é como um filhotinho.
Seu pé está crescendo mais rápido que o resto do seu corpo.”
Ronnie sorriu, mas seu sorriso desapareceu com a mesma rapidez que
havia aparecido. No silêncio que se seguiu ela sentiu sua mãe recolher
seu longo cabelo e o torcer em um solto rabo-de-cavalo em suas costas.
Sua mãe fazia isso desde que Ronnie era uma garotinha. Por mais
estranho que fosse, ela ainda achava aquilo reconfortante. Não que ela
algum dia admitiria isso, é claro.
“Vou te dizer o seguinte,” sua mãe continuou. Ela caminhou até o armário
e colocou a mala em cima da cama. “Por que você não me conta
enquanto fazemos a mala?”
“Eu nem ao menos saberia por onde começar.”
“Que tal pelo começo? Jonah mencionou algo sobre tartarugas?”
Ronnie cruzou seus braços, sabendo que a história não havia começado
ali. “Na verdade não,” ela disse. “Mesmo que eu não estivesse lá quando
aconteceu, eu acho que o verão realmente começou com o incêndio.”
“Que incêndio?”
Ronnie alcançou a pilha de fotografias na cabeceira da cama e
gentilmente removeu um esfarrapado artigo de jornal que se encontrava
entre duas fotos. Ela entregou o amarelado papel para sua mãe.
“Esse incêndio,” ela disse. “O da igreja.”

Suspeita de Fogos de Artificio Ilegais no
Incêndio da Igreja
Pastor ferido
Praia de Wrightsville, Carolina do Norte – Um
incêndio destruiu o prédio histórico da Primeira
Igreja Batista na véspera de Ano-Novo e investigadores
suspeitam de fogos de artifícios ilegais.
Uma ligação anônima levou os bombeiros à igreja
próxima à praia logo após a meia-noite, onde
foram encontradas chamas e fumaça na parte de
trás do prédio, disse Tim Ryan, chefe do Corpo de
Bombeiros da Praia de Wrightsville. Restos de
fogos de artifícios foram encontrados na origem do
incêndio.
O pastor Charlie Harris estava dentro da igreja
quando o fogo começou e sofreu queimaduras de
segundo grau nos braços e nas mãos. Foi levado
ao Centro Médico Regional de New Hanover e está
na Unidade de Terapia Intensiva no momento.
Foi o segundo incêndio em igrejas nos últimos
meses, no condado de New Hanover. Em
novembro, a igreja da Aliança da Boa Esperança
em Wilmington foi completamente destruída.
“Investigadores ainda tratam o caso como
suspeito, um provável incêndio intencional”.
Pontuou Ryan.
Testemunhas relataram que menos de 20 minutos
antes do incêndio, fogos de artifícios foram vistos
sendo lançados na praia por trás da igreja,
provavelmente por conta das comemorações do
Ano-Novo. “Fogos de artifícios são ilegais na
Carolina do Norte, e são considerados perigosos
principalmente por causa do tempo seco”, alertou
Ryan, “Esse incêndio mostra o porquê da
ilegalidade. Um homem está no hospital e a igreja
foi totalmente destruída.”
Sua mãe acabou de ler e olhou para Ronnie; ela hesitou, mas, com
um suspiro, começou a contar a história que, mesmo em
retrospectiva, lhe parecia totalmente sem sentido.
.......

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