domingo, 21 de novembro de 2010

Terceiro capítulo

3
...♪...
Ronnie
A feira estava tumultuada. Ou melhor, Ronnie se corrigiu, O Festival de
Frutos do Mar de Wrightsville Beach estava tumultuado. Enquanto ela
pagava por um refrigerante em um dos estandes, ela pôde ver carros
estacionados um ao lado do outro ao longo das duas ruas que davam
para o píer e até notou alguns ousados adolescentes alugando as
calçadas perto da ação.
Porém, até agora, a “ação” estava bem entediante. Ela esperava que a
Roda Gigante fosse permanente e que o píer possuísse lojas como as do
calçadão de Atlantic City. Em outras palavras, ela esperava que aqui fosse
o tipo de lugar que ela poderia se ver passeando no verão. Sem muita
sorte. O festival estava temporariamente localizado no estacionamento
perto do píer, e parecia, na maior parte o tempo, com um pequeno
parque. Os instáveis brinquedos eram parte de um parque viajante, e o
estacionamento estava alinhado com barraquinhas de jogos com preços
absurdos e estandes de comida engordurada. O lugar todo era meio...
nojento.
Não que alguém parecesse compartilhar dessa opinião. O lugar era
apertado. Velhos e jovens, famílias, grupos de estudantes provocando uns
aos outros. Não importava para onde ia, ela sempre parecia lutar contra a
maré de corpos. Suados corpos. Grandes, suados corpos, dos quais fora
esmagada quando a multidão de repente parou. Sem dúvida ambos
haviam comido cachorro-quente e barras de chocolate que ela viu em um
estande. Ela enrugou seu nariz. Tão nojento.
Espiando por uma abertura, ela escorregou para longe dos brinquedos e
das barraquinhas de jogos e se direcionou para o píer. Felizmente, a
multidão diminuiu conforme ela ia para o píer, passando por barraquinhas
vendendo artesanato. Nada que ela pudesse se imaginar comprando —
quem compraria um gnomo construído inteiramente de conchas? Mas é
óbvio que alguém comprava essas coisas ou as barraquinhas não
existiriam. Distraída, tropeçou em uma mesa ocupada por uma mulher
idosa sentada em uma cadeira dobrável. Vestindo uma blusa estampada
com o logotipo da SPCA, ela tinha cabelos brancos e um rosto alegre e
convidativo — o tipo de avó que provavelmente passava o dia todo
cozinhando biscoitos para o Natal, Ronnie supôs. Na mesa em frente a
ela haviam folhetos e uma jarra de doações, junto com uma grande caixa
de papelão. Dentro da caixa estavam quatro filhotinhos cinzas, um deles
saltitou com suas patas traseiras para se espreitar ao lado dela.
“Hey, amiguinho,” ela disse.
A mulher idosa sorriu. “Você quer segurá-lo? Esse é o divertido. O chamo
de Seinfeld.”
O filhote deu um estridente gemido.
“Não, está tudo bem.” Apesar dele ser fofo. Muito fofo, mesmo que
achasse que o nome não combinasse com ele. E ela meio que queria
segurá-lo, mas sabia que não iria querer devolvê-lo se o fizesse. Ela era
uma boba em relação a animais em geral, especialmente os
abandonados. Como esses carinhas. “Eles vão ficar bem, certo? Você
não vai os colocar para dormir, vai?”
“Eles ficarão bem,” a mulher respondeu. “Por isso montamos a mesa.
Assim as pessoas podem adotá-los. Ano passado, encontramos um lar
para mais de trinta animais, e esses quatro já foram reivindicados. Só
estou esperando seus novos donos os levarem para casa. Mas há mais
no abrigo se estiver interessada.
“Só estou visitando,” Ronnie respondeu, assim que gritos romperam da
praia. Ela levantou seu pescoço, tentando ver. “O que está acontecendo?
Um show?”
A mulher balançou a cabeça. “Vôlei de praia. Eles estão jogando há horas
— é algum tipo de campeonato. Você deveria ir assistir. Ouvi os gritos o
dia todo, os jogos devem estar bem excitantes.” Ronnie pensou sobre
isso, imaginando, Por que não? Não poderia ser pior do que já estava por
aqui. Ela jogou alguns dólares na jarra de doações antes de se dirigir à
praia.
O sol estava se pondo, dando ao oceano um resplendor quase dourado.
Na praia, algumas poucas famílias estavam sentadas em toalhas
próximas à água, junto com alguns castelos de areia prestes a serem
varridos pela maré. Carragos se lançavam para cima e para baixo,
caçando caranguejos.
Não demorou muito para ela alcançar a fonte de toda a movimentação.
Assim que ela se aproximava da borda da quadra, ela notou que as outras
garotas na torcida pareciam fixadas em dois jogadores do lado direito.
Nenhuma surpresa. Os dois garotos — da sua idade? Mais velhos? —
eram do tipo que sua amiga Kayla casualmente descreveria como
“colírio”. Embora nenhum deles fosse exatamente o tipo de Ronnie, era
impossível não admirar seus esbeltos e musculosos físicos e a forma que
fluíam pela areia.
Especialmente o mais alto, com cabelo castanho escuro e uma pulseira
de macramê em seu pulso. Kayla definitivamente teria se concentrado
nele — ela sempre preferiu os mais altos — da mesma forma que a
garota loira com um vestido de praia do outro lado da quadra se
concentrava nele. Ronnie havia notado a loira e sua amiga logo quando
chegou. Elas eram ambas magras e bonitas, com deslumbrantes dentes
brancos, e obviamente costumavam ser o centro das atenções e tinham
todos os garotos babando por elas. Elas se mantiveram longe da multidão
e torciam cuidadosamente, provavelmente assim não bagunçariam seus
cabelos. Elas deveriam pendurar uma plaquinha avisando que tudo bem
admirar à distância, mas não chegue muito perto. Ronnie não as
conhecia, mas já não gostava delas.
Ela voltou sua atenção para o jogo bem a tempo de ver os garotos bonitos
marcarem outro ponto. E outro. E mais outro. Ela não sabia quanto tava o
placar, mas era óbvio que eles eram o melhor time. E ainda assim,
enquanto ela assistia, silenciosamente começou a torcer pelo outro time.
Tinha menos a ver com o fato dela sempre torcer pro perdedor — que ela
torcia — e mais a ver com o fato da dupla vencedora a lembrar dos tipos
mimados de escolas particulares que ela algumas vezes se deparava nos
clubes, os garotos da Upper East Side de Dalton e Buckley que pensavam
que eram melhores que todo mundo simplesmente porque seus pais eram
investidores de bancos. Ela tinha visto o suficiente do conhecido grupo de
privilegiados a ponto de reconhecer um membro só de olhar para ele, e
ela apostava sua vida que os dois eram com certeza parte do grupo dos
populares por aqui. Sua suspeita se confirmou após o próximo ponto
quando o parceiro do garoto de cabelo castanho piscou para a amiga da
Barbie loira bronzeada enquanto se preparava para sacar. Nessa cidade,
era claro que as pessoas bonitas se conheciam.
Por que ela não estava surpresa com isso?
O jogo de repente pareceu menos interessante, e ela se virou para ir
embora assim que outro saque navegou sobre a rede. Ela ouviu
vagamente alguém gritando quando a equipe adversária devolveu o
saque, mas antes dela dar mais alguns passos, ela sentiu os
espectadores à sua volta começarem a tropeçar uns nos outros, tirando
seu equilíbrio por um instante.
Um longo instante. Ela se virou bem a tempo de ver um dos jogadores
correndo em sua direção a toda velocidade, levantando sua cabeça,
prestando atenção na instável bola. Ela não teve muito tempo para reagir
antes dele colidir com ela. Ela sentiu ele segurá-la pelos ombros numa
simultânea tentativa de parar o seu ímpeto e a impedir de cair. Ela sentiu
seus braços sacudirem com o impacto e observou quase que em
fascinação enquanto a tampa do copo de isopor voava para fora,
refrigerante formando um arco no ar antes de encharcar seu rosto e sua
blusa.
E então, assim de repente, tudo tinha acabado. Olhando para cima, ela
viu o jogador de cabelos castanhos olhando para ela, seus olhos
arregalados com o choque.
“Você está bem?” ele ofegou.
Ela podia sentir o refrigerante escorrendo pelo seu rosto, ensopando sua
blusa. Vagamente, ela ouviu alguém da multidão começar a rir. E por que
não deveriam rir? Estava sendo um dia tão fantástico.
“Estou bem,” ela retrucou.
“Você tem certeza?” o garoto arfou. Pelo menos, ele pareceu
genuinamente arrependido. “Eu corri em sua direção meio forte.”
“Só... me solta,” ela disse com os dentes cerrados.
Ele não pareceu notar que ainda segurava seus ombros, e suas mãos
imediatamente a liberaram. Ele deu um passo para trás e
automaticamente alcançou sua pulseira. Ele a girava quase que
involuntariamente. “Eu sinto muito. Eu estava indo atrás da bola e—”
“Eu sei o que você estava fazendo,” ela disse. “Eu sobrevivi, okay?”
Com isso, ela se virou, querendo nada além de ir o mais longe possível
daqui. Atrás dela, ela ouviu alguém gritar, “Vamos, Will! Vamos voltar para
o jogo!” mas enquanto ela fazia seu caminho pela multidão, ela estava de
alguma forma ciente que ele continuava a olhando até que ela
desapareceu de sua vista. Sua blusa não estava arruinada, mas isso não
a fazia se sentir muito melhor. Ela gostava dessa blusa, era uma
lembrança do show do Fall Out Boy que ela fugiu para ver com Rick no
ano passado. Sua mãe quase perdeu a paciência por causa disso, e não
era simplesmente porque Rick tinha uma teia de aranha tatuada em sua
nuca e mais piercings na orelha que Kayla; era porque ela tinha mentido
sobre onde eles estavam indo, e ela não tinha voltado para casa até à
tarde do dia seguinte, uma vez que eles acabaram ficando na casa do
irmão de Rick na Filadélfia. Sua mãe proibiu Ronnie de ver ou até mesmo
falar com Rick de novo, uma regra que Ronnie quebrou logo no dia
seguinte.
Não que ela amasse o Rick; francamente, ela nem gostava tanto dele.
Mas ela estava zangada com sua mãe, e parecia certo na hora. Mas
quando ela chegou na casa dele, ele já estava chapado e bêbado de
novo, do mesmo jeito que estava no show, e ela percebeu que se
continuasse vendo ele, ele iria continuar pressionando ela a experimentar
o que fosse que ele estava tomando, assim como tinha feito na noite
anterior. Ela ficou apenas alguns minutos na casa dele antes de ir para a
Union Square pelo resto da tarde, sabendo que tudo estava terminado
entre eles.
Ela não era inocente em relação às drogas. Alguns de seus amigos
fumavam maconha, alguns consumiam cocaína e ecstasy, e um até tinha
o horrível hábito de usar metanfetamina. Todos além dela bebiam nos fins
de semana. Em todos os clubes e festas que ia lhe ofereciam livre acesso
a tudo isso. Ainda assim, parecia que não importava o quanto suas
amigas fumavam ou bebiam e juravam que isso fazia a noite valer à pena,
elas sempre passavam o resto da noite embaralhando suas palavras ou
perdendo o equilíbrio ou vomitando ou perdendo completamente o
controle e fazendo coisas realmente estúpidas. Coisas que normalmente
envolviam algum garoto. Ronnie não queria chegar a esse ponto. Não
depois do que aconteceu com Kayla no inverno passado. Alguém — que
Kayla nunca soube quem — derramou GHB em sua bebida, e apesar dela
ter apenas uma vaga lembrança do que aconteceu depois, ela tinha
certeza que se lembrava de estar em um quarto com três garotos que ela
conheceu pela primeira vez naquela noite. Quando ela acordou na manhã
seguinte, suas roupas estavam espalhadas pelo quarto. Kayla nunca
disse mais nada — ela preferiu fingir que nada aconteceu e se
arrependeu de ter contado tanto para Ronnie — mas não era difícil unir os
pontos.
Quando ela chegou no píer, Ronnie se sentou com seu copo meio vazio e
esfregou furiosamente sua blusa com seu molhado guardanapo. Parecia
estar funcionando, mas o guardanapo se desintegrou em pequenos flocos
que pareciam caspas.
Ótimo.
Ela desejou que o garoto tivesse corrido na direção de outra pessoa. Ela
só estava lá a o que, dez minutos? Quão estranho era que ela se virou
para sair na mesma hora que a bola voou em sua direção? E que ela
estava segurando um refrigerante numa multidão de um jogo de vôlei que
ela nem queria assistir, em um lugar que ela não queria estar? Daqui a
milhões de anos, a mesma coisa poderia nunca acontecer de novo. Com
uma sorte dessa, ela deveria ter jogado na loteria.
E então tinha aquele garoto. O garoto fofo de cabelos e olhos castanhos.
De perto, ela percebeu que ele era mais bonito do que fofo,
especialmente com aquela expressão de... preocupado. Ele talvez fosse
parte dos populares, mas durante um nanosegundo que seus olhos se
encontraram, ela teve a estranha sensação de eles eram tão reais quanto
pareciam. Ronnie balançou a cabeça para limpar sua mente de tais
pensamentos. Claramente o sol havia afetado seu cérebro. Satisfeita que
tinha feito o melhor que podia com o guardanapo, ela pegou o copo de
refrigerante. Ela planejava jogar o resto fora, mas enquanto ela se virava,
ela sentiu o copo ficar entre ela e mais alguém. Dessa vez, nada
aconteceu em câmera lenta; o refrigerante cobriu imediatamente a parte
da frente de sua blusa.
Ela paralisou, olhando para sua blusa sem acreditar. Só pode ser
brincadeira.
Parada na sua frente estava uma garota da sua idade segurando uma
barra de chocolate, parecendo tão surpresa quanto ela. Ela estava vestida
de preto, e seus cabelos pretos possuíam indisciplinados cachos que
contornavam seu rosto. Como Kayla, ela tinha pelo menos seis piercings
em cada orelha, destacando algumas miniaturas de caveiras que pendiam
de seu lóbulo, e sua sombra preta e o delineador lhe davam uma
aparência quase selvagem.
“Que droga é ser você,” ela disse.
“Você acha?”
“Pelo menos o outro lado combina agora.”
“Ah, já entendi. Você está tentando ser engraçada.”
“Mais para brilhante.”
“Então você deveria ter dito algo como ‘Talvez você devesse preferir
garrafinhas.’”
A garota gótica riu, num surpreendente tom de garotinha. “Você não é
daqui, é?”
“Não, sou de Nova Iorque. Estou visitando meu pai.”
“Pelo fim de semana?”
“Não. Por todo o verão.”
“Realmente é uma droga ser você.”
Dessa vez, Ronnie que riu. “Eu sou Ronnie. Abreviação de Veronica.”
“Me chame de Blaze.”
“Blaze?”
“Meu nome na verdade é Galadriel. É do Senhor dos Anéis. Minha mãe é
estranha assim mesmo.”
“Pelo menos ela não te chamou de Gollum.”
“Ou Ronnie.” Inclinando sua cabeça, ela gesticulou sobre seu ombro. “Se
você quiser alguma coisa seca, tem umas blusas do Nemo numa
barraquinha logo ali.”
“Nemo?”
“É, Nemo. Do filme? Peixe laranja e branco, nadadeira menor que a
outra? Fica preso em um aquário e o pai vai procurar por ele?”
“Eu não quero uma blusa do Nemo, okay?”
“Nemo é legal.”
“Talvez, se você tiver seis anos,” Ronnie retrucou.
“Combina com você.”
Antes que Ronnie pudesse responder, ela avistou três garotos fazendo
seu caminho através da multidão. Eles ficaram longe das pessoas na
praia com suas bermudas rasgadas e tatuagens, peitos nus sob as
jaquetas de couro. Um deles tinha um piercing na sobrancelha e estava
carregando um antigo rádio; o outro tinha um moicano branco e braços
cobertos de tatuagens. O terceiro, como Blaze, tinha um longo cabelo
preto em contraste com sua pele branca como leite. Ronnie virou
instintivamente para Blaze, apenas para perceber que Blaze não estava
mais ali. Em seu lugar estava Jonah. “O que você derramou na sua
blusa?” ele perguntou. “Você está toda molhada e pegajosa.”
Ronnie procurou por Blaze, se perguntando aonde ela tinha ido. E por
que. “Só vai embora, okay?”
“Não posso. Papai está procurando por você. Eu acho que ele quer que
você vá pra casa.”
“Onde ele está?”
“Ele parou para ir ao banheiro, mas deve estar aqui a qualquer minuto.”
“Diga a ele que não me viu.”
Jonah pensou sobre isso. “Cinco pratas.”
“O que?”
“Me dá cinco pratas e eu esqueço que te vi.”
“Você está falando sério?”
“Você não tem muito tempo,” ele disse. “Agora são dez pratas.”
Acima da cabeça de Jonah, ela avistou seu pai procurando pela multidão
a sua volta. Instintivamente ela se abaixou, sabendo que não tinha
chances de passar por ele. Ela olhou para seu irmão, o chantagista, que
obviamente sabia disso. Ele era bonitinho e ela o amava e respeitava
suas habilidades de chantagem, mas ainda assim, ele era seu irmão mais
novo. Em um mundo perfeito, ele estaria do seu lado. Mas ele estava?
Claro que não.
“Eu te odeio, sabe,” ela disse.
“É, eu também te odeio. Mas isso ainda vai te custar dez pratas.”
“Que tal cinco?”
“Você perdeu sua chance. Mas seu segredo estará a salvo comigo.” Seu
pai ainda parecia não ter visto eles, mas estava chegando perto.
“Ok,” ela assobiou, cavando em seus bolsos. Ela pegou uma nota
amassada e Jonah a colocou em seu bolso. Espiando sobre seu ombro,
ela viu seu pai se movendo em sua direção, sua cabeça ainda virando de
um lado para o outro, e ela se abaixou pelas barraquinhas. A
surpreendendo, Blaze estava apoiada ao lado de uma barraquinha,
fumando um cigarro.
Ela deu um sorriso forçado. “Problemas com seu pai?”
“Como eu saio daqui?”
“Isso depende de você.” Blaze deu de ombros. “Mas ele sabe que blusa
você está usando.”
Uma hora depois, Ronnie estava sentada ao lado de Blaze em um dos
bancos perto do final do píer, ainda entediada, mas não tanto quanto
antes. Blaze acabou se mostrando uma boa ouvinte, com um estranho
senso de humor — e o melhor de tudo; ela parecia amar Nova Iorque
tanto quanto Ronnie, mesmo que nunca tivesse ido lá. Ela perguntou
sobre as coisas básicas: Times Square e Empire State Building e a
Estátua da Liberdade — armadilhas para turistas que Ronnie tentava
evitar a todo custo. Mas Ronnie se animou descrevendo a verdadeira
Nova Iorque: os clubes em Chelsea, a música em Brooklyn, e os camelôs
de Chinatown, onde era possível comprar CDs piratas ou bolsas Prada
falsas ou basicamente qualquer coisa bem mais barato.
Falar sobre esses lugares a fazia ficar louca para voltar para casa em vez
de estar aqui. Estar em qualquer lugar menos aqui.
“Eu tampouco iria querer vir para cá,” Blaze concordou. “Acredite em mim.
Isso aqui é chato.”
“Quanto tempo você mora aqui?”
“Só durante minha vida toda. Pelo menos eu me visto bem.”
Ronnie havia comprado a blusa estúpida do Nemo, sabendo que parecia
ridícula. GG era o único tamanho que tinha à venda, e a blusa quase
alcançava seus joelhos. Só compensava o fato que depois que ela a
vestiu, ela fora capaz de passar pelo seu pai sem que ele a visse. Blaze
estava certa sobre isso. “Alguém me disse que Nemo era legal.”
“Ela estava mentindo.”
“O que ainda estamos fazendo aqui? Meu pai provavelmente já foi
embora.”
Blaze se virou. “Por quê? Você quer voltar para o parque? Talvez ir na
casa mal assombrada?”
“Não. Mas deve ter alguma outra coisa acontecendo.”
“Ainda não. Mais tarde vai ter. Mas por hora, vamos só esperar.”
“Pelo o que?”
Blaze não respondeu. Em vez disso, ela levantou e se virou de costas,
olhando para a escura água. Seu cabelo se movia com a brisa, e ela
parecia olhar para a lua. “Eu te vi mais cedo, sabe.”
“Quando?”
“Quando você estava no jogo de vôlei.” Ela gesticulou para o píer. “Eu
estava logo ali.”
“E...?”
“Você parecia deslocada.”
“Você também.”
“Por isso eu estava no píer.” Ela pulou em cima da grade e se sentou,
virada para Ronnie. “Eu sei que você não quer estar aqui, mas o que o
seu pai fez para você ficar tão irritada?”
Ronnie limpou suas mãos em sua calça. “É uma longa história.”
“Ele mora com alguma namorada?”
“Eu não acho que ele tenha uma. Por quê?”
“Se considere sortuda.”
“Sobre o que você está falando?”
“Meu pai mora com a namorada. É a terceira desde o divórcio, diga-se de
passagem, e ela é a pior até agora. Ela é apenas alguns anos mais velha
que eu e se veste como uma stripper. Até onde eu sei, ela era uma
stripper. Passo mal sempre que tenho que ir lá. É como se ela não
soubesse como agir perto de mim. Uma hora ela tenta me dar conselhos
como se fosse minha mãe, outra hora ela está tentando ser minha melhor
amiga. Eu odeio ela.”
“E você mora com sua mãe?”
“É. Mas agora ela tem um namorado, e ele está em casa o tempo todo. E
ele também é um perdedor. Ele usa aquela peruca ridícula porque ficou
careca quando tinha tipo vinte anos ou algo assim, e ele está sempre me
dizendo que eu deveria pensar em dar uma chance para a faculdade.
Como se eu ligasse para o que ele pensa. Ele é um idiota, sabe?”
Antes que Ronnie pudesse responder, Blaze pulou da grade. “Vamos.
Acho que está prestes a começar. Você precisa ver isso.”
Ronnie seguiu Blaze pelo píer, em direção a uma multidão que cercava o
que parecia ser um show de rua. Surpresa, ela percebeu que os artistas
eram os três caras que ela tinha visto mais cedo. Dois deles estavam
dançando breakdance com a música que saía do rádio, enquanto o outro
com um longo cabelo preto estava em pé no centro fazendo malabarismo
com o que pareciam bolas de golfe em chamas. De vez enquanto ele
parava de fazer o malabarismo e simplesmente segurava a bola, a
girando entre seus dedos ou a rolando pelas costas de sua mão ou
rolando de um braço para o outro. Duas vezes, ele fechou a mão em volta
da bola de fogo, sem apagá-la, apenas para mover sua mão, permitindo
as chamas escaparem pelas pequenas aberturas entre seus dedos.
“Você o conhece?” Ronnie disse.
Blaze acenou. “Aquele é o Marcus,”
“Ele está usando algum tipo de luva protetora?”
“Não.”
“Aquilo não machuca?”
“Não se você segurar direito. É incrível, não é?”
Ronnie tinha que concordar. Marcus apagou as duas bolas e as
reacendeu apenas as tocando. No chão, estava um chapéu de mágico
virado ao contrário, e Ronnie observava as pessoas começarem a jogar
dinheiro nele.
“Onde ele consegue as bolas de fogo?”
“Ele que faz. Eu posso te mostrar como. Não é difícil. Tudo que você
precisa é de uma blusa de algodão, agulha e linha, e gás.”
À medida que a música continuava a tocar, Marcus atirou as três bolas de
fogo para o garoto com o moicano e acendeu mais duas. Eles fizeram
malabarismo as jogando de um para o outro como palhaços jogam pinos
de boliche no circo, mais rápido e mais rápido, até um arremesso sair
errado.
Exceto que não erravam. O garoto com piercing na sobrancelha pegou a
bola de fogo como se fosse uma bola de futebol e começou a jogá-la de
um pé para o outro como se fosse uma bola comum. Após apagarem as
três bolas, os outros dois fizeram o mesmo, a trupe toda estava chutando
duas bolas de fogo entre eles. O público começou a aplaudir, dinheiro
chovendo dentro do chapéu. Então de uma vez só, pegaram as restantes
bolas de fogo e as apagaram em sintonia com o fim da música. Ronnie
tinha que admitir, ela nunca vira algo do tipo. Marcus andou até Blaze e
lhe deu um longo beijo que parecia extremamente inapropriado para se
dar em público. Ele abriu os olhos lentamente, olhando em direção a
Ronnie antes de se afastar de Blaze.
“Quem é essa?” ele perguntou, gesticulando em direção à Ronnie.
“Essa é a Ronnie,” Blaze disse. “Ela é de Nova Iorque. Acabei de
conhecer.”
Moicano e o Sobrancelha de Piercing se juntaram a Marcus e Blaze a
examinando detalhadamente, fazendo Ronnie se sentir distintamente
desconfortável.
“Nova Iorque, huh?” Marcus perguntou, puxando um isqueiro de seu bolso
e acendendo uma das bolas de fogo. Ele segurou a imóvel orbe
flamejante entre o dedão e o indicador, fazendo Ronnie se perguntar de
novo como ele poderia fazer isso sem se queimar.
“Você gosta de fogo?” ele gritou.
Sem esperar por resposta, ele jogou a bola de fogo em sua direção.
Ronnie pulou para fora do caminho da bola, muito assustada para
responder. A bola aterrissou atrás dela bem na hora que um policial correu
em direção a ela, apagando as chamas com seus pés.
“Você três,” ele gritou, apontando. “Para fora. Agora. Eu já disse que não
podem fazer esse showzinho de vocês no píer, e da próxima vez, eu juro
que vou levá-los comigo.”
Marcus ergueu suas mãos e deu um passo para trás. “Já estávamos indo
embora.”
Os garotos pegaram suas jaquetas e começaram a se mover pelo píer,
em direção aos brinquedos do parque. Blaze os seguiu, deixando Ronnie
sozinha. Ronnie sentiu o olhar do policial nela, mas o ignorou. Em vez
disso, ela hesitou por um momento antes de ir atrás deles.
......

Um comentário:

  1. ei eu to mesmo lendo seu blog suas postagens e gostaria pedir pra voce ler o meu pleeeease ta muito legal é http://nileywelovethey.blogspot.com/

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