sábado, 20 de novembro de 2010

Primeiro Capítulo

1
...♪...
Ronnie
Seis meses antes
Ronnie se sentou preguiçosamente no banco da frente do carro, se
perguntando por que seus pais a odiavam tanto.
Essa era a única coisa que explicaria o motivo dela estar indo visitar seu
pai, nesse lugar esquecido por Deus, em vez de passar o tempo com
suas amigas em Manhattan.
Não, risca isso. Ela não estava apenas visitando o seu pai. Visitar implica
uma ou duas semanas, eventualmente uma semana. Ela supôs que
poderia viver com uma visita. Mas ficar até o fim de Agosto? Basicamente
o verão todo? Isso era castigo, e durante as nove horas de estrada que
levavam para chegar lá, ela se sentiu como uma prisioneira sendo
transferida para uma penitenciária rural. Ela não conseguia acreditar que
sua mãe estava realmente a fazendo passar por isso.
Ronnie estava tão envolvida com sua miséria, que levou alguns segundos
para reconhecer a Sonata no. 16 de Mozart em Dó Maior. Era uma das
obras que ela apresentou no Carnegie Hall há quatro anos, e ela sabia
que sua mãe tinha posto para tocar enquanto Ronnie dormia. Que pena.
Ronnie estendeu a mão para desligar o leitor de CD.
“Por que você fez isso?” sua mãe disse, franzindo a testa. “Eu gosto de
ouvir você tocando.”
“Eu não.”
“E se eu abaixar o volume?”
“Apenas pare, Mãe. Okay? Não estou com humor pra isso.”
Ronnie encarou a janela, sabendo muito bem que os lábios de sua mãe
tinham acabado de virar uma linha apertada. Ela fazia muito isso
ultimamente. Era como se seus lábios estivessem magnetizados.
“Eu acho que vi um pelicano quando cruzamos a ponte para Wrightsville
Beach,” sua mãe comentou com uma alegria forçada.
“Uau, isso é incrível. Talvez você deva chamar o Caçador de Crocodilos.”
“Ele morreu,” Jonah disse, sua voz flutuando do banco traseiro, o som se
unificava com os do seu Game Boy. Seu chato irmão de dez era viciado
naquela coisa. “Não se lembra?” ele continuou. “Foi muito triste.”
“Claro que eu me lembro.”
“Você não parecia se lembrar.”
“Bem, eu me lembrava.”
“Então você não deveria ter dito o que disse.”
Ela não perdeu seu tempo respondendo pela terceira vez. Seu irmão
sempre tinha a última palavra. Isso a deixava louca.
“Você foi capaz de dormir um pouco?” sua mãe perguntou.
“Até você passar por aquele buraco. Obrigada, por sinal. Minha cabeça
praticamente atravessou o vidro.”
O olhar de sua mãe continuou na estrada. “Estou feliz em saber que seu
humor fica melhor depois de um cochilo.”
Ronnie estourou uma bola feita com seu chiclete. Sua mãe odiava quando
ela fazia isso, o que era o principal motivo dela ter feito praticamente sem
parar enquanto eles dirigiam pela I-95. A interestadual, em sua humilde
opinião, era o pedaço mais chato de toda a estrada. A não ser que alguém
gostasse de fast foods gordurosos, banheiros de estrada nojentos e
zilhões de pinheiros, sua monotonia hipnótica poderia ninar uma pessoa.
Ela disse essas exatas palavras para sua mãe em Delaware, Marylan e
Virginia, mas sua mãe tinha ignorado os comentários todas as vezes.
Além de tentar fazer a viagem ser legal, desde que essa seria a última vez
que iriam se ver por um bom tempo, sua mãe não era do tipo que
conversava no carro. Ela não estava nem um pouco confortável dirigindo,
o que não era surpreendente levando em consideração que eles ou
andavam de metrô ou pegavam táxis quando precisavam ir a algum lugar.
No apartamento, no entanto... era outra história. Sua mãe não pensava
duas vezes na hora de se meter nas coisas, e o síndico fora duas vezes
nos últimos meses pedir para que falassem mais baixo. Sua mãe
provavelmente acreditava que quanto mais alto ela gritasse sobre as
notas de Ronnie, ou os amigos de Ronnie, ou o fato que Ronnie
continuava a ignorar o toque de recolher, ou o Incidente — especialmente
o Incidente — faria com que Ronnie passasse a se importar.
Okay, ela não era a pior das mães. Ela realmente não era. E quando se
sentia generosa, Ronnie talvez até admitisse que ela fosse bem razoável
em relação às outras mães. O problema é que parecia que sua mãe
estava presa em alguma esquisita máquina do tempo na qual seus filhos
nunca cresciam, e Ronnie desejava pela centésima vez que ela tivesse
nascido e Maio em vez de Agosto. Ela já teria dezoito anos e sua mãe não
poderia forçá-la a fazer nada. Legalmente, ela seria velha o suficiente
para tomar suas próprias decisões, e vamos dizer que essa viagem não
estava nos seus planos. Mas agora, Ronnie não tinha nenhuma voz na
hora das decisões. Porque ela ainda tinha dezessete anos. Porque tinha
sido enganada pelo calendário. Porque sua mãe a concebeu três meses
antes de que deveria. O que era aquilo? Não importava o quanto Ronnie
havia ferozmente implorado e reclamado ou gritado ou choramingado
sobre os planos pro verão, nada faria a menor diferença. Ronnie e Jonah
iriam passar o verão com seu pai e ponto final. Sem se, e ou mas sobre
isso, foi como sua mãe se expressou. Ronnie tinha aprendido a desprezar
aquela expressão.
Mesmo à saída da ponte, o tráfico estava lento como uma tartaruga. Do
lado, entre as casas, Ronnie capturou vislumbres do oceano. Yippee.
Como se ela se importasse.
“De novo, por que você está nos obrigando a fazer isso?” Ronnie gemeu.
“Já tivemos essa conversa,” sua mãe respondeu. “Vocês precisam passar
mais tempo com o seu pai. Ele sente falta de vocês.”
“Mas por todo o verão? Não poderiam ter sido só umas semanas?”
“Vocês precisam mais que duas semanas juntos. Você não o vê há três
anos.”
“Não é culpa minha. Foi ele que foi embora.”
“Sim, mas você não atende suas ligações. E sempre que ele vem para
Nova Iorque para ver você e Jonah, você o ignora e sai com suas
amigas.”
Ronnie estouro a bola do seu chiclete de novo. Pelo canto do olho, ela viu
sua mãe se retrair.
“Eu não quero ver ou falar com ele,” Ronnie disse.
“Tente fazer o seu melhor, okay? Seu pai é um bom homem e te ama.”
“É por isso que ele nos deixou?”
Em vez de responder, sua mãe olhou pelo retrovisor.
“Você tem estado ansioso por isso, não tem, Jonah?”
“Você está brincando? Vai ser ótimo!”
“Estou feliz de ver sua atitude positiva. Talvez você devesse ensinar a sua
irmã.”
Ele bufou. “É, está certo.” “Eu só não entendo por que eu não posso
passar o verão com meus amigos,” Ronnie reclamou, voltando ao
assunto. Ela não tinha acabado ainda. Embora ela soubesse que suas
chances eram praticamente nulas, ela ainda alimentava a fantasia de que
iria convencer sua a mãe a dar meia volta com o carro.
“Você não quer dizer que prefere passar a noite toda nos clubes? Não sou
ingênua, Ronnie. Eu sei o que a garotada faz nesses lugares.”
“Não faço nada de errado, Mãe.”
“E suas notas? E o toque de recolher? E—“
“Podemos falar de outra coisa?” Ronnie cortou. “Como o porquê de ser
tão imperativo que eu vá passar um tempo com meu pai?”
Sua mãe a ignorou. E de novo, Ronnie sabia que ela tinha todos os
motivos para fazê-lo. Ela já tinha respondido milhões de vezes essa
pergunta, mesmo que Ronnie não aceitasse a resposta.
O trânsito eventualmente começou a andar de novo e o carro se moveu
por meio quarteirão antes de parar mais uma vez. Sua mãe abaixou a
janela e tentou espiar os carros à sua frente.
“Me pergunto o que está acontecendo,” ela resmungou. “Está realmente
engarrafado aqui.”
“É a praia,” Jonah sugeriu. “É sempre tumultuado na praia.”
“São três horas da tarde num Domingo. Não deveria ser tumultuado.”
Ronnie pôs as pernas pra cima, odiando sua vida. Odiando tudo isso
“Hey, Mãe?” Jonah perguntou. “Papai sabe que Ronnie foi presa?”
“Sim. Ele sabe,” ela respondeu.
“O que ele vai fazer?”
Dessa vez, Ronnie que respondeu. “Ele não vai fazer nada. A única coisa
que ele sempre se importou foi o piano.”
Ronnie odiava o piano e jurou que nunca tocaria de novo, uma decisão
que mesmo algum dos seus amigos achava estranha, desde que o piano
esteve presente durante uma grande parte da sua vida. Seu pai, uma vez
professor da Juilliard, fora seu professor também, e por um longo tempo
ela foi consumida pelo desejo não só de tocar, mas de compor músicas
com ele. Ela era boa. Muito boa, na verdade, e por causa da conexão de
seu pai com a Juilliard, a administração e os professores estavam cientes
de sua habilidade. O boato lentamente começou a se espalhar no obscuro
mundo “música clássica é tudo que importa” que consistia a vida de seu
pai. Alguns artigos em revistas de música clássica se seguiram, e a
moderadamente longa reportagem no The New York Times, que focavam
na conexão entre pai e filha, vieram a seguir. Tudo eventualmente resultou
em uma cobiçada apresentação na série Jovens Artistas no Carnegie Hall
há quatro anos. Esse, ela supôs, foi o ponto máximo de sua carreira. E
fora de fato; ela não era ingênua sobre seu grande feito. Ela sabia que
eram raras as oportunidades como essa, mas ultimamente ela se
perguntou se os sacrifícios tinham valido a pena. Provavelmente ninguém
além de seus pais se lembrava de sua apresentação. Ou ao menos
ligava. Ronnie aprendeu que ao menos que você tenha um vídeo popular
no YouTube ou se fizesse shows para milhares de pessoas, habilidade
musical não significava nada.
De vez em quanto ela desejava que seu pai tivesse investido em guitarra
elétrica. Ou pelo menos aulas de canto. O que ela deveria fazer com a
habilidade de tocar piano? Ensinar música em alguma escola local? Ou
tocar no lobby de algum hotel enquanto os hóspedes se registravam? Ou
perseguir a dura vida que seu pai perseguiu? Olhe aonde o piano o levou.
Ele acabou se demitindo de Juilliard para poder pegar a estrada fazendo
concertos como pianista e se viu tocando em lugares insignificantes para
uma audiência que mal enchia as duas primeiras fileiras. Ele viajava
durante quarenta semanas por ano, tempo o suficiente para criar tensão
num casamento. Próxima coisa que ela se lembra é de sua mãe gritando
com seu pai enquanto ele se escondia em sua concha como costumava
fazer, até que um dia ele simplesmente não voltou de uma turnê estendida
pelo sul. Até onde ela sabia, ele não estava trabalhando ultimamente. Ele
não estava nem dando aulas particulares. Como isso funcionou para
você, Pai?
Ela sacudiu a cabeça. Ela realmente não queria estar aqui. Só Deus sabe
o quanto ela queria não ter nada a ver com tudo isso.
“Hey, Mãe!” Jonah chamou. Ele se inclinou para frente. “O que é aquilo
ali? Uma Roda Gigante?”
Sua mãe esticou o pescoço, tentando ver em torno da minivan a pista ao
lado dela. “Eu acho que sim, querido,” ela respondeu. “Deve haver algum
parque na cidade.”
“Nós podemos ir? Depois de todo mundo jantar junto?”
“Você terá que pedir para o seu pai.”
“É, e talvez mais tarde, nós todos nos sentamos em volta de uma fogueira
e assamos marshmallows,” Ronnie se intrometeu. “Como uma grande
família feliz.”
Dessa vez os dois a ignoraram.
“Você acha que eles têm outros brinquedos?” Jonah perguntou.
“Tenho certeza que sim. E se seu pai não quiser ir neles, tenho certeza
que sua irmã irá com você.”
“Maneiro!”
Ronnie afundou no seu banco. Ela imaginou que sua mãe iria sugerir algo
do tipo. A coisa toda era muito deprimente para ser verdade.
......

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